Gestão de Vendas

Beyond Trade no varejo: como criar novas margens sem depender de desconto

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Fachada de uma loja urbana chamada “LOJA DE ROUPAS” no fim de tarde, com vitrine iluminada e área interna visível. À esquerda, um funcionário entrega caixas a um motoboy ao lado da moto. À direita, no balcão de “RETIRADA”, uma funcionária sorridente entrega uma encomenda a uma cliente igualmente feliz. Ícones sutis sobrepostos indicam vendas, estoque e clientes, sugerindo integração de dados no varejo.

Imagine a cena: você faz campanha, negocia condições, empurra tráfego, ajusta preço… e, no fim do mês, a sensação é a mesma: trabalhei mais para ganhar o mesmo. No médio varejo, isso vira rotina porque a conta apertou dos dois lados, o custo de operação subiu e a margem da venda ficou cada vez mais pressionada. E quando a resposta automática vira “dar mais desconto”, o negócio entra naquela esteira que cansa: vende hoje, sacrifica amanhã.

É aí que entra o Varejo além da venda (Beyond Trade). Não como modismo, mas como mudança de mentalidade: parar de depender só da transação e começar a monetizar o ecossistema que você já tem: audiência, operação, relacionamento e dados operacionais de vendas, estoque e clientes. Em três anos, esse tipo de receita e margem acelerou no varejo global, segundo pesquisa da Bain & Company. A pergunta prática, então, não é “se isso é para gigantes”, e sim: qual avenida paralela faz sentido para o seu varejo e o que precisa estar organizado para ela virar rotina?

Você vende mais, mas parece que ganha o mesmo

Tem um tipo de mês que todo gestor de médio varejo conhece: campanha rodando, mídia puxando tráfego, time no limite, frete subindo, parcelado comendo taxa, devolução aumentando, ruptura acontecendo no pior momento… e mesmo assim o resultado não “abre”.

Na operação, vira aquele jogo de empurrar pedra morro acima:

  • você acelera volume, mas a margem média cai
  • você melhora preço, mas o custo do frete e da devolução sobe
  • você ganha tráfego, mas a conversão não acompanha
  • você faz promo, mas o cliente aprende a esperar desconto

E aí vem a virada de pergunta que muda a gestão:

Em vez de “como eu vendo mais?”, a pergunta passa a ser: “como eu cresço sem me matar de desconto?”

Essa mudança é o coração do Beyond Trade.

O que é “Varejo além da venda” (Beyond Trade)

Beyond Trade é uma forma simples de dizer: crescer receita e margem com o ecossistema, não só com a transação do produto.

Na prática, é quando o varejo passa a monetizar ativos que já existem no dia a dia:

  • audiência (gente navegando, pesquisando, comprando)
  • operação (entrega, retirada, estoque distribuído, processos)
  • relacionamento (base, recorrência, confiança, presença local)
  • dados (vendas, estoque, comportamento e preferências)

Isso não significa “virar empresa de tecnologia”. Significa uma coisa bem mais pé no chão: parar de depender exclusivamente do lucro da venda para sustentar o crescimento.

E por que isso ganhou força agora? Um combo de realidade:

  • digitalização acelerou (mais dados, mais canais, mais complexidade)
  • pressão por eficiência aumentou (custo subiu, margem apertou)
  • o varejo percebeu que tinha ativos subutilizados (principalmente dados e audiência)

Prova visual do movimento: nos últimos anos, as receitas e lucros associados a Beyond Trade cresceram rápido no varejo global, conforme divulgado pela Bain & Company.

Por que isso acelerou em 3 anos (e por que o médio varejo deveria ligar)

Quando um movimento cresce rápido, ele costuma sinalizar uma mudança estrutural, não só uma “moda do ano”. O dado de evolução em apenas três anos é um desses sinais. Não é promessa de que vai acontecer igual no Brasil, nem que o médio varejo vai replicar a mesma curva. Mas é um alerta: o jogo de margem está ficando mais difícil e a resposta está ficando mais ampla.

O ponto central é simples:

  • a margem da venda sofre pressão constante
  • Beyond Trade abre avenidas paralelas de margem
  • essas avenidas não substituem o varejo tradicional — elas sustentam o varejo tradicional

E aqui entra uma frase que serve como bússola de priorização:

Você já tem audiência, operação e relacionamento. O desafio é estruturar e priorizar.

O risco do médio varejo é olhar para Beyond Trade como uma lista de iniciativas “bonitas” (e infinitas). O caminho certo é olhar como uma escolha de gestão: qual avenida faz sentido agora, com a sua realidade.

Os 4 blocos do Beyond Trade (o mapa do jogo)

Para não virar colcha de retalhos, vale usar um mapa simples. Os 4 blocos mais comuns de Beyond Trade são:

1) Serviços Logísticos: quando a operação vira produto

O varejo médio já faz logística todo dia. A virada está em transformar parte disso em oferta estruturada, com regra e métrica.

Exemplos:

  • entrega e retirada como diferencial (e potencial receita)
  • mesmo dia/local em regiões onde você tem densidade
  • preenchimento simples para parceiros locais (guardar/expedir itens com SLA básico)
  • last mile com frota própria/terceiros bem orquestrados

Onde dá errado (muito comum): Prometer SLA sem enxergar a realidade do estoque e do corte por loja/canal. A operação vira “heróica” e a experiência piora.

Perguntas que o varejista realmente faz quando pensa nisso:

  • “Qual loja entrega melhor e por quê?”
  • “Onde o frete come minha margem?”
  • “Onde eu prometo prazo e não tenho estoque confiável?”

Sem visibilidade fina, logística vira custo. Com visibilidade, vira produto.

2) Retail Media: monetizar audiência com mensuração perto da venda

Retail Media é, no fundo, simples: a indústria paga para aparecer para o consumidor certo, no momento de compra, com mensuração conectada à venda.

O ganho do varejo aqui é óbvio: você já tem audiência e dados próprios (first-party). A pergunta é como começar sem “projetão”.

Versão simples para iniciar no médio varejo:

  • 1–2 formatos (ex.: banner no site + destaque de vitrine/app)
  • 1 régua de mensuração (ex.: vendas incrementais, ROAS, share de conversão)
  • 1 rotina comercial com a indústria (agenda, pacote, pós-campanha)

Onde dá errado: inventário sem governança e campanha que ignora disponibilidade.

Não tem nada mais corrosivo do que vender “destaque” para produto que está em ruptura ou com estoque desalinhado por loja/canal.

3) Serviços Financeiros (Embedded Finance): receita, fidelização e dados andando juntos

Serviços financeiros no varejo não são novidade para quem vive parcelamento, taxa, conciliação e crédito todo dia. A diferença é quando isso vira produto integrado e não só “condição de pagamento”.

Na prática, embedded finance pode incluir:

  • parcelamento e crédito (próprio ou via parceiro)
  • carteira/benefícios e limites por perfil
  • seguros e garantias estendidas (bem encaixados no momento certo)
  • antecipação/soluções para sellers e fornecedores
  • conciliação mais inteligente (menos perda, menos retrabalho)

Em 2025, o mercado global de embedded finance ultrapassou US$ 148 bi e cresce rapidamente, com projeções que apontam para US$ 1,7 tri até 2034, com uma projeção de crescimento anual composto de cerca de 31,5%. (Fonte: Precedence Research)

Onde dá errado: risco e fraude sem base de cliente, recorrência e regra clara.

Embedded finance não é só “habilitar”, é governar quem pode, quanto pode, qual contrapartida, qual inadimplência aceitável e como evolui.

4) Marketplace: variedade e monetização sem imobilizar estoque (mas com regras)

Marketplace é uma alavanca poderosa porque amplia o sortimento sem exigir que você compre tudo. Em geral, a monetização vem de:

  • taxa/comissão por venda
  • serviços (logística, anúncio, destaque, ferramentas)
  • aumento de frequência e ticket por variedade

No médio varejo, o argumento mais forte costuma ser: expandir categoria e cauda longa sem estourar capital de giro.

Onde dá errado: catálogo bagunçado e SLA inconsistente.

Se o cliente compra no seu site e recebe uma experiência ruim, ele não briga com o lojista (seller), ele briga com a sua marca. Marketplace sem regra vira multiplicador de problemas: ruptura, atraso, trocas, NPS caindo.

O ponto que ninguém quer ouvir: Beyond Trade depende do básico bem feito

Beyond Trade é sedutor porque parece “uma nova fonte de margem”. E é.

Mas tem uma verdade incômoda: se o básico estiver torto, Beyond Trade vira apresentação bonita e não vira rotina.

O motivo é prático: a execução depende de dados espalhados e decisões travadas. ERP, e-commerce, CRM, planilhas, relatórios diferentes por área… e ninguém confia 100% em nada.

Para o Beyond Trade funcionar no dia a dia, você precisa de três coisas:

  • Vendas (demanda real e margem)
  • Estoque (disponibilidade por loja/canal)
  • Clientes (segmento, recorrência, sensibilidade à oferta)

Quando isso está unificado, algumas decisões deixam de ser “reunião” e viram rotina:

  • “qual oportunidade monetizar primeiro?”
  • “qual loja tem estoque e potencial para ativação?”
  • “qual público responde melhor sem desconto eterno?”

É aqui que a conversa com a Maloka fica objetiva: Beyond Trade não é sobre inventar iniciativa. É sobre decidir rápido com confiança e sustentar uma cadência de execução.

Na prática, o que trava não é a ideia, é a execução: campanha de Retail Media sem checar ruptura, promessa logística sem visibilidade por loja, crédito sem entender recorrência. Quando Vendas, Estoque e Clientes estão unificados, essas decisões deixam de ser discussão e viram botão semanal.

Por onde começar no médio varejo (sem virar projeto infinito)

A regra mais importante para não virar bagunça é quase chata de tão simples:

1 iniciativa, 1 métrica, 1 rotina semanal.

Sem isso, vira “piloto eterno”, cada área tocando uma coisa, e o resultado não aparece.

Uma ordem de começo (adaptável à realidade):

  1. Retail Media “mínimo viável” (se você já tem tráfego/canais)
  2. Serviços logísticos (se frete, prazo e SLA já são dor diária)
  3. Embedded finance (se há base recorrente e objetivo de aumentar LTV)
  4. Marketplace (se você já domina catálogo e operação)

E um checklist rápido para tirar do campo do achismo:

  • Tenho dados confiáveis de vendas, estoque e clientes?
  • Tenho catálogo e regras mínimas por canal/loja?
  • Tenho cadência para medir e ajustar (sem depender de “tempo livre”)?
  • Consigo conectar a iniciativa com a realidade operacional (estoque, prazo, atendimento)?

Se você respondeu “não” para metade disso, tudo bem. Isso só define o primeiro passo: organizar o básico para escolher melhor a avenida paralela.

Beyond Trade não é “mais uma moda”, é uma escolha de gestão

Beyond Trade não é fazer tudo. É escolher a avenida paralela certa, com o tamanho certo para a sua operação, e sustentar com dados e rotina.

No fim, a pergunta que importa não é “qual é a moda do varejo”. É:

  • onde eu tenho ativo subutilizado (audiência, operação, relacionamento)?
  • qual iniciativa eu consigo medir e evoluir semanalmente?
  • o que eu preciso unificar em dados para isso não virar só discurso?

Se você fizer essa escolha com clareza, o varejo “além da venda” deixa de ser tendência distante e vira gestão prática.

Quer mapear qual iniciativa de Beyond Trade faz mais sentido para o seu varejo e o que falta em dados para começar sem bagunça?

Converse com a Maloka e veja como unificar Vendas, Estoque e Clientes para decidir com clareza.

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