Você pode até colocar um assistente de IA no topo da operação. Mas se o cadastro está bagunçado, o custo está errado e o estoque vive negativo, o que você vai ganhar é um robô respondendo com convicção… em cima de dados tortos.
Imagine o seguinte cenário: é segunda-feira, às 8h30. Você abre o relatório do fim de semana e ele jura que um produto campeão vendeu menos do que o normal. Só que o time no balcão diz que “vendeu pra caramba”. Aí você puxa o estoque e aparece saldo negativo em itens que você viu na prateleira ontem. Em seguida, alguém comenta: “Vamos colocar IA pra prever demanda e resolver isso.” E você sente que faz sentido… só que, no fundo, tem uma pergunta que ninguém quer encarar:
Como a IA vai acertar se o básico está quebrado?
Este artigo é um guia prático para tirar o tema da IA do “discurso” e colocar no chão da loja. A ideia é simples: um checklist mínimo por área (Vendas, Estoque, Custos, Cadastros e Clientes), com sinais de alerta e prioridades. Pra você saber por onde começar e reduzir o risco de investir em tecnologia sem retorno.
A pressa pela IA está te fazendo tropeçar no básico
IA no varejo não é mágica. Ela amplifica o que já existe:
- Se os dados são consistentes, você ganha velocidade, precisão e automação.
- Se os dados são inconsistentes, você ganha… automação do erro.
O sintoma mais clássico é este: “eu tenho dados, mas não confio neles.”
E quando a liderança não confia, tudo vira disputa de opinião: o gerente “acha”, o comprador “sente”, o financeiro “discorda” e o comercial “jura”. A tecnologia vira um acessório caro em vez de um motor de decisão.
A boa notícia é que você não precisa “virar uma empresa de dados” amanhã. Você precisa do mínimo viável bem feito.
O que é mínimo viável de dados (e o que não é)
Mínimo aqui não significa pouco, significa consistente. Pense em três critérios simples para validar se a base está pronta para automação inteligente:
- Completude
Tem todos os dados que precisa ter? (os campos essenciais estão preenchidos e sem buracos crônicos) - Consistência
As regras de negócio são sempre as mesmas? (sem cada loja faz de um jeito diferente) - Rastreabilidade
Dá pra explicar o número? (de onde veio, o que entrou, o que saiu, o que foi ajustado)
Se você passar nesses três pontos, a conversa muda. Você sai do “vamos comprar uma solução” e vai para “vamos destravar decisões”.
Agora, vamos ao checklist.
Checklist 1: Vendas (o coração da operação)
Se a área de vendas está torta, todo o resto vira suposição: estoque, compra, margem, comissão, metas e até o desempenho da loja.
O mínimo que precisa existir (e estar certo) em cada venda:
- Data e hora
- Loja / canal (loja física, e-commerce, marketplace, televendas etc.)
- SKU do produto
- Quantidade
- Preço unitário
- Desconto (valor e/ou %)
- Vendedor/atendente (quando aplicável)
- Identificador do ticket/pedido
- Situação da venda (concluída, cancelada, devolvida, trocada)
- Cliente (quando faz sentido; se não, pelo menos identificar “balcão” de forma padronizada)
Regras simples que evitam “lixo bonito”
- Cancelamento não pode parecer venda. A venda cancelada precisa estar marcada como cancelada e não somar ao faturamento.
- Devolução/troca precisa de tratamento consistente. Se devolução entra como “venda negativa” em um lugar e como “ajuste” em outro, você perde o controle.
- Desconto precisa de motivo ou padrão. Não para punir o time, mas para entender o que está acontecendo.
Sinais de alerta
- Desconto aparece “do nada” e ninguém sabe explicar.
- Muitos SKUs genéricos tipo “DIVERSOS”, “PRODUTO”, “AJUSTE”.
- Vendas sem canal/loja definido.
- Divergência frequente entre PDV e ERP (um diz uma coisa, outro diz outra).
- Trocas e devoluções bagunçam tanto o relatório que você evita olhar.
Prioridade prática
- Padronize status de venda (concluída/cancelada/devolvida/trocada).
- Elimine o uso de “SKUs genéricos” nos itens mais vendidos.
- Garanta que canal/loja esteja sempre preenchido.
- Faça um “pente-fino” nos top produtos (os que mais impactam faturamento) antes do resto.
Checklist 2: Estoque (onde o prejuízo se esconde)
Estoque é o lugar onde o varejo sangra em silêncio: ruptura, excesso, perdas, validade, inventário “no feeling”.
Os campos mínimos de estoque (o suficiente para parar de apagar incêndio):
- Saldo atual por SKU e por loja/localização
- Custo associado ao SKU (mesmo que ainda seja simples)
- Status do item (ativo/inativo/bloqueado)
- Localização (depósito/loja, e se fizer sentido: endereço interno)
- Lote/validade (apenas para categorias que exigem)
Movimentações que precisam bater (sem isso, saldo vira ficção)
Você precisa conseguir reconciliar:
- Entrada (compra/recebimento)
- Saída (venda)
- Transferência (entre lojas/depósitos)
- Ajustes (perda, avaria, quebra, correção)
- Inventário (contagem e correção)
Sinais de alerta
- Estoque negativo “normalizado” (tipo: “ah, isso acontece sempre”).
- Ajuste manual toda semana e ninguém sabe por quê.
- Inventário que “confirma” o sistema, em vez de confrontar a realidade.
- Compra feita no susto porque a loja descobriu que não tinha.
Prioridade prática
- Defina um fluxo único para ajustes (quem faz, por que faz, como registra).
- Garanta que a transferência seja registrada como transferência (e não como saída em uma loja e entrada misteriosa na outra).
- Faça uma conciliação simples: venda do dia vs. baixa de estoque do dia (mesmo que em amostra).
- Comece inventariando os SKUs mais críticos (alto giro/alto valor/alta ruptura).
Checklist 3: Custos e margens (sem isso, IA vira enfeite)
Sem custo confiável, você pode até vender muito… e não entender por que o caixa não acompanha. Ou pior: você pode treinar decisões (humanas ou automatizadas) que parecem boas, mas destroem margem.
O mínimo do custo suficiente para orientar decisão deve ser:
- Defina um padrão: custo médio ou último custo (o que fizer mais sentido para sua operação).
- Considere, quando possível, componentes que mudam o jogo:
- impostos relevantes
- frete
- bonificações/descontos de fornecedor (se a operação já controla isso)
Não precisa de perfeição contábil. Precisa de consistência gerencial.
Desconto e margem: padronização para não comparar banana com maçã
-
Regra do jogo do desconto:
- desconto no item vs desconto no pedido (defina)
- desconto do vendedor vs desconto promocional (separar quando possível)
-
Regra do jogo da margem:
- margem por SKU
- margem por categoria
- margem por canal
Se isso muda toda hora, qualquer análise vira ruído.
Sinais de alerta
- Custos zerados ou desatualizados por meses.
- Margem “boa demais” em tudo (geralmente é erro de custo).
- Itens vendidos abaixo do custo sem alerta.
- Promoção que bombou, mas o resultado final foi pior do que um dia normal.
Prioridade prática
- Padronize o método de custo (médio/último).
- Atualize custos dos itens de maior giro primeiro.
- Configure um alerta interno (mesmo que manual): venda abaixo do custo.
- Separe descontos promocionais dos descontos de negociação.
Checklist 4: Cadastro de produtos (o dicionário do seu negócio)
Cadastro é o “idioma” do seu varejo. Se o dicionário está confuso, qualquer inteligência (humana ou artificial) vai falar errado.
Campos mínimos de SKU sugeridos:
- Nome do produto claro e padronizado (sem “Produto 123”)
- Categoria (com lógica)
- Marca
- Unidade de medida
- Variações (cor, tamanho, voltagem… quando aplicável)
- Status (ativo/inativo)
- GTIN/EAN (se existir e for útil)
- SKU único e sem duplicidade
Padronização de categorias: simples, mas que funcione
Evite taxonomias “academia de BI”. O que funciona é:
- poucas categorias
- nomes claros
- sem “Outros” gigante
- mesma regra em todas as lojas/canais
Sinais de alerta
- “Diversos”, “Outros”, “Sem categoria” dominando o mix.
- Duplicidade: dois SKUs para o mesmo produto, ou o mesmo SKU para coisas diferentes.
- Variações soltas (camiseta azul P e azul M como itens sem relação).
- Produto descontinuado continua ativo e poluindo os relatórios.
Prioridade prática
Comece pelo que paga a conta:
- Arrume primeiro os 20% de SKUs que mais impactam faturamento e margem
- Depois avance para categorias problemáticas (as com mais “Outros” e mais duplicidade)
Checklist 5: Cliente (quando faz sentido e como não complicar)
Nem todo varejo precisa ter um CRM sofisticado para começar com IA. Mas quase todo varejo se beneficia de um mínimo de histórico de cliente quando quer:
- aumentar recompra
- segmentar campanhas
- reduzir desconto “no escuro”
- entender frequência e ticket
O mínimo para segmentação e relacionamento com clientes é:
- Identificador único (evitar duplicidade)
- Contato (telefone/email, quando houver)
- Consentimento/opt-in (conforme sua prática e legislação aplicável)
- Histórico de compras ligado ao cliente (quando o cliente se identifica)
- Origem (loja/canal)
Sinais de alerta
- Muitos cadastros duplicados (mesmo cliente aparece 3 vezes).
- Campos essenciais sempre em branco.
- “Cliente balcão” misturado com cadastros incompletos e sem padrão.
- Time evita cadastrar porque “atrapalha a fila”.
Prioridade prática
- Defina uma política simples: o que é obrigatório no PDV e o que é opcional.
- Crie um padrão para “balcão” (um único identificador, não mil variações).
- Higienize duplicidades começando pelos clientes mais recorrentes.
Fechamento: IA boa é IA que começa no básico
A pergunta não é “quando eu vou usar IA?”. A pergunta é: o básico está pronto para a IA te ajudar ou para te confundir mais rápido?
Se você fizer o checklist mínimo, você não só se aproxima da IA: você melhora sua operação imediatamente. Porque, antes de qualquer automação inteligente, vem uma vitória ainda maior no varejo: parar de decidir no escuro.
E aqui entra a virada: quando o básico está consistente, a IA deixa de ser “mais uma ferramenta” e vira rotina de gestão. Você não precisa abrir 10 relatórios de uma vez, você precisa de perguntas simples e respostas confiáveis: “o que vai romper?”, “onde estou perdendo margem?”, “o que devo repor agora?”
A Maloka existe exatamente pra isso, fazer você, varejista, conversar com seus dados (Vendas, Estoque e Clientes) e transformar o que hoje é ruído em decisões do dia a dia, com alertas e recomendações que cabem na operação da sua loja.